Texto técnico — roteiro de avaliação para profissionais que atendem pessoas com diabetes.
Objetivo do exame
Identificar o pé em risco de ulceração antes que a lesão aconteça. Os dois pilares avaliados são a perda da sensibilidade protetora (PSP) e a doença arterial periférica (DAP) — os principais preditores de úlcera segundo o IWGDF.
Anamnese dirigida
- Tempo de diabetes e controle glicêmico (última HbA1c relatada)
- Histórico de úlcera ou amputação (fator de risco máximo)
- Sintomas neuropáticos: queimação, formigamento, dormência noturna
- Claudicação intermitente ou dor em repouso
- Tabagismo, nefropatia, retinopatia
- Calçados habituais e ocupação
Inspeção sistemática
Com o paciente descalço e deitado, examinar dorso, planta, bordas e espaços interdigitais dos dois pés:
- Pele: ressecamento, fissuras, maceração interdigital, micoses
- Unhas: onicomicose, onicocriptose, corte inadequado
- Deformidades: dedos em garra/martelo, hálux valgo, proeminências ósseas, pé de Charcot
- Calosidades — especialmente com hemorragia subcutânea (sinal pré-ulcerativo)
- Temperatura comparativa entre os pés (assimetria sugere inflamação ou Charcot agudo)
Teste do monofilamento de 10 g (Semmes-Weinstein 5.07)
- Demonstre o toque no antebraço do paciente para que reconheça o estímulo
- Paciente de olhos fechados
- Aplique o monofilamento perpendicular à pele, com força suficiente para curvá-lo, por ~2 segundos
- Pontos recomendados: hálux (polpa) e 1ª, 3ª e 5ª cabeças metatarsais de cada pé (protocolos variam de 3 a 10 pontos; evite calosidades — teste ao redor)
- Alterne toques reais com "toques simulados" e pergunte "senti ou não?"
- Insensibilidade em qualquer ponto = perda da sensibilidade protetora
Complementares: diapasão de 128 Hz no dorso do hálux (sensibilidade vibratória), pino/palito (dolorosa) e martelo (reflexo aquileu).
Avaliação vascular
- Palpação dos pulsos pedioso e tibial posterior dos dois lados
- Pele fria, fina e sem pelos, rubor de declive e palidez à elevação sugerem DAP
- Pulsos ausentes ou dúvida → encaminhar para avaliação com índice tornozelo-braquial (ITB); em diabéticos, calcificação arterial pode falsear o ITB (avaliar índice dedo-braquial)
Classificação de risco e frequência de acompanhamento (IWGDF)
| Categoria | Achados | Rastreamento |
|---|---|---|
| 0 | Sem PSP e sem DAP | 1x/ano |
| 1 | PSP **ou** DAP | 1x a cada 6–12 meses |
| 2 | PSP + DAP, ou PSP/DAP + deformidade | 1x a cada 3–6 meses |
| 3 | Úlcera prévia, amputação ou Charcot | 1x a cada 1–3 meses |
A categoria define também a conduta: da orientação básica (cat. 0) a calçados terapêuticos sob medida, remoção regular de calosidades e vigilância intensiva (cat. 2–3).
Critérios de encaminhamento imediato
- Úlcera ativa, sinais de infecção ou necrose
- Suspeita de Charcot agudo (pé quente, edemaciado, sem trauma claro)
- Dor isquêmica em repouso
- Ferida sem cicatrização em 2 semanas
Registro
Documente sempre: pontos testados e resultado, pulsos, achados de pele/unhas/deformidades, categoria de risco e data do próximo retorno. Sem registro, não há defesa técnica nem continuidade do cuidado.
Referências
- IWGDF Practical Guidelines — prevenção e manejo do pé diabético
- Consenso Internacional do Pé Diabético (tradução em português)
- Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes — avaliação dos pés