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Técnico

Exame do pé diabético na prática: monofilamento 10 g, diapasão e classificação de risco IWGDF

Roteiro técnico completo da avaliação do pé em risco: sequência do exame, pontos de teste do monofilamento, interpretação e definição da frequência de retorno por categoria de risco.

Portal Podologia20 Ago 202610 min de leitura
Exame do pé diabético na prática: monofilamento 10 g, diapasão e classificação de risco IWGDF

Texto técnico — roteiro de avaliação para profissionais que atendem pessoas com diabetes.

Objetivo do exame

Identificar o pé em risco de ulceração antes que a lesão aconteça. Os dois pilares avaliados são a perda da sensibilidade protetora (PSP) e a doença arterial periférica (DAP) — os principais preditores de úlcera segundo o IWGDF.

Anamnese dirigida

  • Tempo de diabetes e controle glicêmico (última HbA1c relatada)
  • Histórico de úlcera ou amputação (fator de risco máximo)
  • Sintomas neuropáticos: queimação, formigamento, dormência noturna
  • Claudicação intermitente ou dor em repouso
  • Tabagismo, nefropatia, retinopatia
  • Calçados habituais e ocupação

Inspeção sistemática

Com o paciente descalço e deitado, examinar dorso, planta, bordas e espaços interdigitais dos dois pés:

  • Pele: ressecamento, fissuras, maceração interdigital, micoses
  • Unhas: onicomicose, onicocriptose, corte inadequado
  • Deformidades: dedos em garra/martelo, hálux valgo, proeminências ósseas, pé de Charcot
  • Calosidades — especialmente com hemorragia subcutânea (sinal pré-ulcerativo)
  • Temperatura comparativa entre os pés (assimetria sugere inflamação ou Charcot agudo)

Teste do monofilamento de 10 g (Semmes-Weinstein 5.07)

  • Demonstre o toque no antebraço do paciente para que reconheça o estímulo
  • Paciente de olhos fechados
  • Aplique o monofilamento perpendicular à pele, com força suficiente para curvá-lo, por ~2 segundos
  • Pontos recomendados: hálux (polpa) e 1ª, 3ª e 5ª cabeças metatarsais de cada pé (protocolos variam de 3 a 10 pontos; evite calosidades — teste ao redor)
  • Alterne toques reais com "toques simulados" e pergunte "senti ou não?"
  • Insensibilidade em qualquer ponto = perda da sensibilidade protetora

Complementares: diapasão de 128 Hz no dorso do hálux (sensibilidade vibratória), pino/palito (dolorosa) e martelo (reflexo aquileu).

Avaliação vascular

  • Palpação dos pulsos pedioso e tibial posterior dos dois lados
  • Pele fria, fina e sem pelos, rubor de declive e palidez à elevação sugerem DAP
  • Pulsos ausentes ou dúvida → encaminhar para avaliação com índice tornozelo-braquial (ITB); em diabéticos, calcificação arterial pode falsear o ITB (avaliar índice dedo-braquial)

Classificação de risco e frequência de acompanhamento (IWGDF)

CategoriaAchadosRastreamento
0Sem PSP e sem DAP1x/ano
1PSP **ou** DAP1x a cada 6–12 meses
2PSP + DAP, ou PSP/DAP + deformidade1x a cada 3–6 meses
3Úlcera prévia, amputação ou Charcot1x a cada 1–3 meses

A categoria define também a conduta: da orientação básica (cat. 0) a calçados terapêuticos sob medida, remoção regular de calosidades e vigilância intensiva (cat. 2–3).

Critérios de encaminhamento imediato

  • Úlcera ativa, sinais de infecção ou necrose
  • Suspeita de Charcot agudo (pé quente, edemaciado, sem trauma claro)
  • Dor isquêmica em repouso
  • Ferida sem cicatrização em 2 semanas

Registro

Documente sempre: pontos testados e resultado, pulsos, achados de pele/unhas/deformidades, categoria de risco e data do próximo retorno. Sem registro, não há defesa técnica nem continuidade do cuidado.

Referências

  • IWGDF Practical Guidelines — prevenção e manejo do pé diabético
  • Consenso Internacional do Pé Diabético (tradução em português)
  • Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes — avaliação dos pés