> Texto técnico. O podólogo não prescreve antifúngicos sistêmicos — mas precisa conhecê-los para orientar, acompanhar resultados, reconhecer efeitos adversos e encaminhar corretamente.
Visão geral das classes
Alilaminas — terbinafina
- Mecanismo: inibe a esqualeno-epoxidase, bloqueando a síntese de ergosterol da membrana fúngica; ação fungicida contra dermatófitos
- Uso: padrão-ouro oral para onicomicose por dermatófitos (típico: 250 mg/dia por 6 semanas em mãos e 12 semanas em pés, a critério médico); também em creme para tinea pedis
- Pontos de atenção: metabolização hepática — casos raros de hepatotoxicidade justificam a avaliação médica prévia; interação com alguns antidepressivos e betabloqueadores
Azólicos — itraconazol, fluconazol (orais); miconazol, cetoconazol, clotrimazol (tópicos)
- Mecanismo: inibem a 14-α-desmetilase (CYP450), reduzindo o ergosterol; ação predominantemente fungistática
- Itraconazol: alternativa oral clássica, inclusive em pulsoterapia (1 semana/mês); espectro amplo (útil quando há suspeita de leveduras ou fungos não dermatófitos)
- Pontos de atenção: os azólicos orais são campeões de interações medicamentosas (anticoagulantes, estatinas, benzodiazepínicos, antiarrítmicos) — atenção redobrada em idosos polimedicados; contraindicação relativa em insuficiência cardíaca (itraconazol)
Tópicos ungueais específicos
- Amorolfina 5% (esmalte): 1–2x/semana; morfolina que age em duas enzimas da via do ergosterol
- Ciclopirox 8% (esmalte): aplicação diária com remoção semanal; quela metais essenciais ao metabolismo fúngico
- Efinaconazol 10% (solução): azólico de nova geração com melhor penetração através da lâmina; aplicação diária sem lixamento
- Indicados para acometimento distal, sem envolvimento da matriz, em até ~50% da lâmina — além disso, o tratamento tópico isolado raramente resolve
O que a evidência mostra
- Onicomicose por dermatófito confirmada + acometimento moderado/grave → terapia oral tem as maiores taxas de cura
- Associação oral + tópico + desbridamento supera monoterapias
- Desbridamento podológico reduz a massa fúngica e melhora a penetração dos tópicos — papel direto do podólogo no protocolo
- Laser é adjuvante com evidência crescente, não substituto da farmacoterapia quando ela é viável
Papel do podólogo no circuito
- Suspeitar e documentar: fotografia, descrição do acometimento (% da lâmina, matriz sim/não, nº de unhas)
- Encaminhar para confirmação: exame micológico direto e cultura antes de tratamento sistêmico
- Executar a parte mecânica: desbastes seriados, redução de espessura, remoção de detritos subungueais
- Acompanhar adesão e evolução: crescimento ungueal saudável a partir da lúnula é o marcador de resposta
- Reconhecer sinais de alerta: icterícia, náusea persistente ou fadiga em paciente sob antifúngico oral → orientar retorno médico imediato
Erros comuns na prática
- Indicar "esmalte antifúngico" para unha com matriz acometida (destino: falha)
- Não investigar o calçado e a tinea pedis associada (fonte de reinfecção)
- Suspender o tópico ao "melhorar o aspecto" — o esquema vai até a substituição completa da lâmina
- Ignorar interações em idosos ao sugerir que "peçam ao médico o comprimido"
Referências
- Manual MSD — Onicomicose: opções terapêuticas e doses usuais
- Revisões recentes sobre eficácia comparada de terbinafina, itraconazol e tópicos de nova geração
- Literatura sobre terapia combinada e desbridamento em onicomicose