Os inimigos invisíveis dos pés
As micoses dos pés são causadas principalmente por fungos dermatófitos — micro-organismos que se alimentam de queratina, a proteína que forma pele, unhas e cabelos. O mais frequente é o Trichophyton rubrum, responsável pela maioria dos casos em todo o mundo. Esses fungos prosperam em ambientes quentes, úmidos e escuros — exatamente o interior de um calçado fechado.
Há duas apresentações principais nos pés:
- Tinea pedis (frieira ou "pé de atleta"): infecção da pele, mais comum entre os dedos
- Onicomicose: infecção das unhas, a mais persistente e difícil de tratar
Quem está mais sujeito
A onicomicose atinge cerca de 10% da população geral, e a frequência sobe muito com a idade — entre idosos, pode chegar à metade das pessoas, segundo o Manual MSD. Fatores de risco bem estabelecidos:
- Idade avançada e crescimento lento das unhas
- Diabetes mellitus e problemas de circulação
- Imunossupressão
- Traumas repetitivos nas unhas (esportes, calçados apertados)
- Hiperidrose (suor excessivo nos pés)
- Frequência a vestiários, piscinas e saunas sem proteção
- Histórico familiar
Importante: a tinea pedis não tratada funciona como porta de entrada para infecções bacterianas como a erisipela — mais um motivo para não ignorar uma "simples frieira".
Como reconhecer
Tinea pedis
- Coceira, descamação e maceração entre os dedos (forma interdigital, a mais comum)
- Descamação difusa e ressecamento em "mocassim" na planta e bordas do pé
- Pequenas bolhas (forma vesiculosa)
- Fissuras dolorosas e mau odor
Onicomicose
- Mancha branca ou amarelada que avança da borda para a raiz da unha
- Espessamento e endurecimento da lâmina
- Unha quebradiça, esfarelando na ponta
- Descolamento da unha do leito (onicólise)
- Acúmulo de resíduo sob a unha
Por que confirmar o diagnóstico antes de tratar
Estudos dermatológicos mostram que quase metade das unhas com aparência de micose tem outra causa: psoríase ungueal, líquen plano, traumas repetitivos ou onicólise de outra origem. O exame padrão é simples — exame micológico direto e cultura de material da unha — e evita meses de antifúngico desnecessário. Na pele, o quadro clínico costuma ser mais característico, mas casos atípicos também merecem confirmação laboratorial.
Tratamento baseado em evidências
Micose de pele (tinea pedis)
- Antifúngicos tópicos (terbinafina, azólicos, ciclopirox) por 2 a 4 semanas resolvem a maioria dos casos
- Casos extensos, recorrentes ou em "mocassim" podem exigir antifúngico oral prescrito por médico
- Secar bem os pés e tratar também o calçado são partes do tratamento
Micose de unha (onicomicose)
O tratamento acompanha o crescimento da unha — 6 a 12 meses — e deve ser escolhido conforme a extensão:
- Casos leves a moderados (sem atingir a matriz): esmaltes e soluções tópicas — amorolfina, ciclopirox e, mais recentemente, efinaconazol, desenvolvido para penetrar melhor a lâmina ungueal
- Casos moderados a graves: antifúngicos orais — terbinafina é considerada padrão-ouro; itraconazol em esquemas de pulso é alternativa. Exigem prescrição e acompanhamento médico
- Laser (Nd:YAG 1064 nm): adjuvante útil, especialmente para quem não pode usar medicação oral
- Desbridamento podológico: a redução mecânica da unha espessada pelo podólogo diminui a carga fúngica e melhora a penetração dos medicamentos — estudos mostram que a combinação acelera os resultados
O que NÃO funciona
- Água sanitária, alho, vinagre puro e "receitas milagrosas" não têm eficácia comprovada e podem causar queimaduras e dermatites
- Esconder a unha com esmalte comum ou unha postiça piora o quadro, abafando ainda mais o fungo
Prevenindo a reinfecção
Até 25% dos casos tratados com sucesso recidivam. Para quebrar o ciclo:
- Seque os pés completamente após o banho, inclusive entre os dedos
- Alterne pares de calçados (24 a 48 h de descanso entre usos)
- Higienize ou troque palmilhas; use antifúngico em pó ou spray nos sapatos
- Meias limpas todos os dias, de tecidos que absorvem umidade
- Chinelos em áreas públicas úmidas
- Não compartilhe alicates, lixas ou toalhas
- Escolha estabelecimentos que esterilizam instrumentais em autoclave
O papel do podólogo e quando procurar o médico
O podólogo realiza a avaliação inicial, o desbridamento técnico das unhas, orienta a prevenção e acompanha a evolução mês a mês. O dermatologista entra no circuito para confirmar o diagnóstico laboratorial e prescrever antifúngicos orais quando necessários. O trabalho conjunto é o caminho mais rápido para uma unha saudável.
Referências
- Manual MSD — Onicomicose e Tinha dos pés (edição para profissionais)
- Revisões sobre avanços no tratamento da onicomicose publicadas em periódicos de dermatologia (2024–2025)
- Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia — Novos avanços no tratamento da onicomicose
- Estudos brasileiros sobre pulsoterapia de terbinafina (UFPR)